"Com todo o cuidado guarda teu coração, pois dele procede a vida" (Pv. 4, 23)

2 de dez de 2010

1º DE DEZEMBRO: DIA MUNDIAL DE COMBATE A AIDS


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"O preconceito e a  discriminação contra as pessoas vivendo com HIV/Aids são as maiores barreiras no combate à epidemia, ao adequado apoio, à assistência e ao tratamento da Aids e ao seu diagnóstico.

 

Demonstrações de amor, um afago, um olhar carinhoso, palavras de esperança e ânimo, um abraço caloroso e confortante não contaminam seu doador. O carinho em toda sua forma é um poderoso apoio a quem é portador. Por isso, diga NÃO ao preconceito. E use camisinha. Não é apenas uma questão de consciência. É um ato de AMOR.

 

Alguns de nós já convivemos e perdemos pessoas importantes, portadoras de HIV. Eu tive a honra de conviver de perto com algumas, muito queridas e amadas. Lindos seres humanos, sedentos de vida, curiosos pelo que o mundo havia a lhes oferecer. E que partiram deixando um grande vazio em minha vida e creio que de muitos, mas nos proporcionando grande aprendizado que só um convívio tão estreito em um momento tão difícil pode produzir.

 

Em 1990, quando me decidi por sair de casa e tomar novos rumos em meu caminho, deparei-me com essa linda criatura. Um caminho novo, grandes desafios, longe de minhas origens, dos meus que tanto me protegiam, dos laços mais caros. E lá o encontrei, sorriso franco, aberto, olhos grandes e um grande abraço honesto e caloroso. Foi empatia à primeira vista. Diria um reencontro com alguém que há séculos estava ausente. E no decorrer deste ano, mais outras pessoas foram se somando ao nosso pequeno grupo, tornando-se um quarteto fantástico e heterogêneo. Cada um com suas características próprias, sua estrutura de vida peculiar, mas com um senso de amizade e união como nunca havia vivenciado. E tendo como centro esse ser cheio de luz. Foi assim durante todo nosso convívio, por quase dois anos, até o dia em que fomos golpeados pela triste notícia. Lembro-me de chegar  em casa, depois de um dia estafante e denso e encontrá-lo junto à outra amiga, em meu quarto, com um olhar perdido, carregando um oceano e um envelope em mãos. Não sabia o que era, mas tinha plena certeza de que havia grande tristeza. Ao me deparar com essa cena os abracei. E ele baixinho, num susurro contido nos disse...   

 

"(...) fui contaminado. Sou soropositivo. Não é justo! Nunca fui devasso, (...)  tinha um parceiro fixo. E agora vou morrer (...)".  

 

Não tenho como descrever meus sentimentos. Apenas chorei junto a ele, nós três alí abraçados, sem uma palavra, sem um movimento, apenas unidos nos consolando uns aos outros. Naquela época havia muito medo e falta de informações mais precisas sobre essa doença e muito do que se ouvia era sobre preconceitos. Para nós tudo era uma pesada novidade, pois até então nunca haviamos vivenciado junto a alguém que amávamos, essa situação. Somente ecos distantes. 

 

Tivemos medo. Não de nosso amigo e o que ele portava, mas do que poderia advir quando soubessem de sua condição. Já prevíamos o preconceito no meio onde estávamos e nossa primeira atitude foi, junto à quarta pessoa do grupo, o protegermos. Ele nos solicitou que não contássemos a ninguém, pois sentia medo e vergonha. Assim foi feito, até quando fosse possível. E juntos criamos mil estratégias para que ninguém desconfiasse. Em nossas aulas, formamos um grupo onde faziamos tudo juntos. Saíamos com ele, jantávamos juntos, ríamos juntos e nos permitíamos viver o dia a dia, passo a passo, desfrutando dos momentos de alegria, mas também das angústias a cada internação, a cada modificação física, a cada relato de preconceito e frieza já sentida, à certeza de um caminho sem volta. Ainda não havia uma grande qualidade de vida para os portadores como há hoje. E assistíamos assustados à absurdamente rápida metamorfose sem podermos paralisar o tempo. Até o fim. 

 

Lembro-me dos últimos dias, após várias internações, quando já não era mais possível esconder sua situação das pessoas ao nosso redor, quando por mais que tentássemos, não tínhamos como protegê-lo desse maldito olhar preconceituoso, do afastamento consciênte daqueles que se diziam colegas, amigos... Éramos precionadas a falar o óbvio, mas nada faria com que quebrássemos nosso acordo, pois era dele esse direito. Nos mantivemos em silêncio, em observação, em vigília. Nos revesávamos nos trabalhos dentro do ateliê e em tudo no que dizia respeito à nossa pós-graduação. Todas as tardes uma de nós o acompanhava ao pátio da escola, para juntos tomar um pouco de sol e trocar confidências, filosofando sobre a vida e a outra vida.  Aquela além dessa aqui. Em sua lucidez, suas palavras soavam com outra vibração,  imbuídas de reflexões sobre esta sua passagem e suas relações afetivas, amorosas, irmanadas, com um conformismo diante do inevitável, mas com uma serenidade absoluta e a certeza de que havia trilhado universos incríveis nessa sua experiência. Difícil, dolorosa, mas iluminada. Sim, ele considerava sua experiência iluminada pois tinha plena consciência de haver se tornado um ser melhor. Nós três, que o acompanhávamos nessas tardes de morno sol, absorvíamos seus pensamentos e palavras, sem nos darmos conta do quanto estávamos aprendendo... 

 

Uma tarde ele não apareceu...

 

Não houve tempo também para nos despedirmos... Soubemos que havia partido, no dia seguinte, num fim de dia triste, morno, junto aos seus entes queridos. Era uma tarde como tantas que compartilhamos. 

 

Dentro de nós apenas um vazio. Imenso. Mas a certeza de termos tido a oportunidade de aprendermos tanto e compartilharmos o mais puro sentimento de afeto e amor com aquele que nos acolheu de forma tão generosa e nos deu a honra de podermos perceber em tão pouco tempo o significado  da amizade e todos os sentimentos que complementam essa virtude.

 

E me pergunto porque somente hoje consigo falar sobre isso. Talvez porque daquela época para cá eu venha aprendendo sobre perdas, sobre vazios e ganhando alguns grises no olhar. Mas também resgatando esses lindos sentimentos apreendidos na convivência com um grupo que me é tão importante até hoje, mesmo com nossos caminhos diferenciados. E porque talvez, com a maturidade, eu esteja conseguindo perceber as sutis nuances dessa experiência que, apesar de triste, me trouxe novas perspectivas.  

 

Mauro, que Deus lhe abençoe. Você está em meu coração.

20 de nov de 2010

O mundo todo em mim

"(...) Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-mundi. O resto é um pergaminho já escrito. (...) Sem que o saibam, alguns obedecem a tropismos imperiosos, submetem-se aos campos magnéticos hiperbóreos ou setentrionais, voltam-se para o nascente, inclinam-se em direção ao poente, sabem-se mortais, é verdade, mas sentem-se como fragmentos de eternidade destinados a se mover num planeta finito (...).  A arte de viajar induz uma ética lúdica, uma declaração de guerra ao espaço quadriculado e à cronometragem da existência. (...)"

Michel Onfray, "Teoria da Viagem: poética da geografia"
Imagem: http://fabio.poeta.blog.uol.com.br/arch2006-06-04_2006-06-10.html

8 de out de 2010

Medio pan y un libro (por Federico Garcia Lorca)

(Obrigada Paloma!!!)

Em homenagem ao Dia das Bibliotecas Populares, um discurso de Federico Garcia Lorca quando o convidaram a inaugurar a biblioteca de seu pueblo. (em espanhol)

Palavras de Federico García Lorca ao  Pueblo de Fuente de Vaqueros (Granada). Setembro de 1931:
"Cuando alguien va al teatro, a un concierto o a una fiesta de cualquier índole que sea, si la fiesta es de su agrado, recuerda inmediatamente y lamenta que las personas que él quiere no se encuentren allí. 'Lo que le gustaría esto a mi hermana, a mi padre', piensa, y no goza ya del espectáculo sino a través de una leve melancolía. Ésta es la melancolía que yo siento, no por la gente de mi casa, que sería pequeño y ruin, sino por todas las criaturas que por falta de medios y por desgracia suya no gozan del supremo bien de la belleza que es vida y es bondad y es serenidad y es pasión. Por eso no tengo nunca un libro, porque regalo cuantos compro, que son infinitos, y por eso estoy aquí honrado y contento de inaugurar esta biblioteca del pueblo, la primera seguramente en toda la provincia de Granada.

No sólo de pan vive el hombre. Yo, si tuviera hambre y estuviera desvalido en la calle no pediría un pan; sino que pediría medio pan y un libro. Y yo ataco desde aquí violentamente a los que solamente hablan de reivindicaciones económicas sin nombrar jamás las reivindicaciones culturales que es lo que los pueblos piden a gritos. Bien está que todos los hombres coman, pero que todos los hombres sepan. Que gocen todos los frutos del espíritu humano porque lo contrario es convertirlos en máquinas al servicio de Estado, es convertirlos en esclavos de una terrible organización social.

Yo tengo mucha más lástima de un hombre que quiere saber y no puede, que de un hambriento. Porque un hambriento puede calmar su hambre fácilmente con un pedazo de pan o con unas frutas, pero un hombre que tiene ansia de saber y no tiene medios, sufre una terrible agonía porque son libros, libros, muchos libros los que necesita y ¿dónde están esos libros?

¡Libros! ¡Libros! Hace aquí una palabra mágica que equivale a decir: 'amor, amor', y que debían los pueblos pedir como piden pan o como anhelan la lluvia para sus sementeras. Cuando el insigne escritor ruso Fedor Dostoyevsky, padre de la revolución rusa mucho más que Lenin, estaba prisionero en la Siberia, alejado del mundo, entre cuatro paredes y cercado por desoladas llanuras de nieve infinita; y pedía socorro en carta a su lejana familia, sólo decía: '¡Enviadme libros, libros, muchos libros para que mi alma no muera!'. Tenía frío y no pedía fuego, tenía terrible sed y no pedía agua: pedía libros, es decir, horizontes, es decir, escaleras para subir la cumbre del espíritu y del corazón. Porque la agonía física, biológica, natural, de un cuerpo por hambre, sed o frío, dura poco, muy poco, pero la agonía del alma insatisfecha dura toda la vida.
 

Ya ha dicho el gran Menéndez Pidal, uno de los sabios más verdaderos de Europa, que el lema de la República debe ser: 'Cultura'. Cultura porque sólo a través de ella se pueden resolver los problemas en que hoy se debate el pueblo lleno de fe, pero falto de luz."

http://www.garcia-lorca.org/Home/Idioma.aspx
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26 de set de 2010

Afagos © (por Moema Queiroz)

Há fatos inesperados em nosso cotidiano que destampam uma série de emoções e sentimentos que talvez não viessem à superfície sem que estes ocorressem. Daí percebemos o quão frágeis e carentes somos. E a vontade que temos é de nos aninharmos como fazíamos quando pequenos, no colo daqueles que nos geraram e nos amam incondicionalmente. Contudo, nem sempre se é possível realizar tal afago, seja devido à distância física, espiritual, ou outro empecilho qualquer.  Hoje acordei assim, com vontade de retornar a um tempo em que éramos um corpo, unidos pelo mais lindo dos afetos, onde não havia perigos nem ameaças, bastando apenas o afago e aconchego dos toques, olhares, odores. Acordei carente de pai e mãe e irmãos e avós. E, muito embora eles estejam presentes em meu tempo de agora, mesmo físicamente distantes, meu desejo é me aninhar em seus colos afetivos e mornos, buscando um cheiro familiar que me sinalizava perspectivas seguras para aquelas horas de puro amor incondicional. Pudera hoje eu poder retroceder no tempo a esses momentos de absoluta segurança afetiva. Ainda bem que podemos resgatar, por conta desses fatos inesperados, nossas memórias. E sermos aquecidos por elas de forma tão absoluta que realmente podemos retornar ao aconchego. Basta fecharmos os olhos, respirarmos profundamente e permitirmos a viagem para esses porões afetivos, amados e abençoados que tanto nos afagam e nos fortalecem a crença de que os grises se dissiparão e inevitavelmente o curso do rio continuará em sua trajetória, vigoroso, punjente, renovador.

"  A vida de cada pessoa é como um rio correndo para Deus.
No mundo encontrarás quem te fira com os calhaus da ingratidão.
Outros tentarão turvar as águas dos teus pensamentos, lançando idéias poluentes.
Por vezes, as dificuldades te apertarão o leito da exist6encia, fazendo surgir as ondas de insegurança.
De outras vezes, depararás com as pedras do desânimo, tentando barrar-te o curso.
Em todas as situações, porém, continua seguindo, animado, pela correnteza da confiança.
Tudo passará e nenhum obstáculo conseguirá impedir que deságües no oceano do amor total, onde encontrarás a razão do teu destino espiritual."
Irmã Sheilla 
(LEVY, Clayton B. Mensagem do dia de Scheilla para você. Centro Allan Kardec Ed., Campinas, SP. 2000, Cap. 10)

Imagem: Fonte Imagens Google

16 de set de 2010

Sobre amigos e outas delicadezas © (por Moema Queiroz)

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"Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica..."
Vinícius de Moraes

O exercício de amar a si mesmo nenhum sentido teria sem aqueles que nos auxiliam neste percurso de crescimento. Tanto os que nos amam, os que nos confortam e se revestem de alicerces em momentos cruciais,  os que compartilham conosco dos pequenos e grandes acontecimentos, prazeirosos ou difíceis, como também os que nos impõe limites, críticas e porque não grandes dificuldades, obstáculos e desafios, seja por amor ou falta dele, pelo desafeto, pela falta de sintonia, pela não bem querência ou por não nos compreenderem. Não importa. Na verdade são instrumentos importantes dessa nossa lapidação, de nosso refinamento de alma, de construção de nosso caráter. Quando conseguimos dissipar as tormentosas tempestades, as densas brumas de nossa visão e sentimentos, percebemos claramente a finalidade destes seres divinos que transitam ao longo de nossa existência, provocando movimentos contínuos que nos impelem à ascensão.  Então a claridade nos arrebata o ser e somos tomados por esse sentimento tão generoso que é a gratidão.

Fonte: http://www.sonetos.com.br/sonetos.php?n=1481
Foto: Imagens Google

Texto de Moema N Queiroz: todos os direitos reservados.

15 de set de 2010

Silêncio...© (por Moema Queiroz)

S i l ê n c i o...
Ouço seu límpido som...
Respiro...
Cerro os olhos
e quão profundamente me enxergo.
Estou aprendendo 
a gostar de mim.

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Texto de Moema N Queiroz: todos os direitos reservados.



23 de jul de 2010

Gosto de afeto© (por Moema Queiroz)

Uma receita de torta de maçã. O que pode haver de encantador em uma simples torta? Seu grande segredo, além dos ingredientes é claro, é com quem a compartilhamos. Essa receita aprendi com uma pessoa que se tornou uma querida amiga. Saboreei essa iguaria em sua casa junto a outros queridos amigos, numa noite de tendências marroquinas, com direito a um jantar maravilhoso à moda desse país. Todos reunidos em torno dos alimentos, sentados em um lindo tapete improvisado. A casa estava sendo ainda organizada e estávamos comemorando essa conquista. Nos encontrávamos em círculo, uns próximos aos outros, como em noite de fogueira. Um ambiente acolhedor, com sabores e odores maravilhosos e a sensação de carinho nos enlaçando. Se fechássemos os olhos a sensação seria a de estarmos em um deserto, em noite amena e enluarada, envoltos em calmo azul, aquecidos pelo calor de uma fogueira generosa. Cuscuz marroquino, vinho tinto, música antiga e a sensação de um outro tempo, rítmo lento, descompassado com o tempo real. Troca de histórias, vivências diversas, o mundo inteiro dentro de nós, personagens desse acampamento cigano, de mágicas fragâncias, de calor no coração. E para finalizar, essa deliciosa e simples torta, que me atrevi a uma releitura com uns pequenos toques a mais. Um gosto de afeto, como brisa diáfana...

Torta de maçã (adaptada da original)

Ingredientes:
100 g de farinha de trigo (pode se mistura 50 g de farinha de trigo branca e 50 g de farinha de trigo integral)
100 g de açucar mascavo
100 g de manteiga
uma pitada de canela em pó
maçã a gosto, fatiadas
uva passa a gosto
amêndoas, nozes ou castanhas a gosto
um toque de um licor ou de um vinho suave de sua preferência
sorvete de creme
folha de hortelã

Modo de fazer:
- misturar a farinha, o açucar, a manteiga e a canela até formar uma
pasta uniforme. Caso utilize margarina ou manteiga sem sal, adicionar
uma pitada de sal na mistura.
- cortar em fatias a maçã
- untar um pirex com manteiga, organizar as maçãs fatiadas e espalhar sobre elas as uvas passas e as frutas secas. Acrescentar
o licor ou vinho sobre tudo.
- acomodar a massa com uma colher, cobrindo toda a maçã. Salpicar com um pouquinho mais de canela em pó.Levar ao forno brando por 30 a 40 minutos (quando der a terceira onda de cheiro, está pronta!).

Ao servir:
Quando estiver pronta, servir com o sorvete de creme enfeitado com a folha de hortelã.
 
Pronto!!!!! A felicidade se instala!!!!

Imagem: Google
Texto de Moema N. Queiroz: todos os direitos reservados.

10 de jul de 2010

Teoria e Prática (por Divaldo Pereira Franco)

"O conhecimento liberta da ignorância. Todavia, somente a sua aplicação liberta do sofrimento.
Há uma expressiva diferença entre a teoria e a prática, em todos os segmentos da humanidade.
A teoria ensina. Porém, a prática afere-lhe o valor.
Não basta saber. É imprescindível utilizar o que se conhece.
O conhecimento, em verdade, amplia os horizontes do entendimento. Não obstante, a sua aplicação alarga as paisagens da vida.
A mente conhecedora deve movimentar as mãos no uso desses valiosos recursos.
O conhecimento de importância é aquele que pode mover essas conquistas em favor do bem do seu possuidor, assim como do meio social onde este se encontra.
Nula é a informação que não produz bênçãos, nem multiplica as disposições da pessoa para a ação útil.
Conhecendo saberás que a tua renúncia auxilia a comunidade, sem que esperes a abnegação dos outros a teu benefício.
O conhecimento superior estimula à imediata atividade.
Acumular informações sem finalidade prática, transforma-se em erudição egoísta que trabalha em benefício da presunção.
Tens a obrigação de conhecer para viver. Simultaneamente, deves viver praticando os salutares esclarecimentos que armazenas, contribuindo para uma existência realizadora, humana e feliz.
Quando leias, exercita a praticidade do contributo cultural que assimilas.
O tempo urge, e as oportunidades de aplicação constituem tuas chances de progresso como de paz.
(...)
Conhecimento que não transforma em utilidade, pode ser qual "sepulcro caiado por fora", ocultando vérmina e morte por dentro, responsável pelo bafio do orgulho e da ostentação."

Fonte: Franco, Divaldo Pereira. Da obra: Momentos de Felicidade.
Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.
2a edição. Salvador, BA: LEAL, 1990.

Imagem: http://martine.org/mains.jpg / imagens google

2 de jul de 2010

Deixe de fora todo o resto (por Linking Park/Chester Bennington)


"Eu sonhei que estava desaparecendo
Você estava tão assustada
Mas ninguém podia ouvir
Pois ninguém mais se importava
Depois do meu sonho
Eu acordei com esse medo
O que eu estou deixando
Quando eu morrer?
Então se você me perguntar,
eu quero que você saiba:
Quando a minha hora chegar,
Esqueça os erros que eu cometi,
Ajude-me a deixar pra trás algumas
Razões para que haja saudades
E, não fique ressentida comigo
E quando você se sentir vazia
Mantenha-me em sua memória,
Deixe de fora todo o resto
Deixe de fora todo o resto...
Não tenha medo
de levar minhas derrotas
Eu compartilhei aquilo que eu fui
Eu sou forte por fora,
Não completamente.
Eu nunca fui perfeito,
Mas nem você foi.
(...)
Deixe de fora todo o resto...
(...)
Esquecendo
Todo o sofrimento
que você aprendeu a esconder tão bem
Fingindo
Que alguém pode chegar e me salvar de mim mesmo.
Eu não posso ser quem você é...
Eu não posso ser quem você é."

Fonte: Leave out all the rest Linking Park/Chester Bennington 

http://www.youtube.com/watch?v=Z6KKlRzvmZ0

Imagem: br.olhares.com/Marciano

14 de jun de 2010

Tempo sábio... © (por Moema Queiroz)


"Dizem que tudo o que buscamos também nos busca e, se ficamos quietos, o que buscamos nos encontrará. É algo que leva muito tempo esperando por nós. Enquanto não chegue, nada faças. Descansa. Já tu verás o que acontece enquanto isto.” 



Recebi hoje essa mensagem pelo email e acabei por compartilhá-la com alguns amigos. Porque creio que estamos todos um pouco nesta expectativa. Algo que talvez nem tenhamos ainda elaborado conscientemente em forma de desejos, talvez nem tenhamos criado imagens-agentes, dessas poderosas que se cristalizam em algum vazio do universo. Mas sentimos que há um espaço a ser preenchido,  talvez à espera de suprimentos mais significativos, de alentos e encantamentos. Um desejo imenso por algo que torna-se difícil nominar, mas que é latente e quase palpável. Como aquela palavra que tentamos lembrar e que está, como dizem, na ponta da língua, a ser lançada mas que ainda não se sente pronta pra ser desvelada, então retorna até surgir tão impetuosamente na mente que a verbalizamos aos gritos, imediatamente, para que não a percamos de vez. Talvez seja esse inevitável processo de amadurecimento, do qual se é impossível se desvencilhar. Expectativa... de um alimento que está além do corpo físico, processo de alma, espírito peregrino em busca de um reencontro consigo mesmo... Gosto de pensar nessa busca que nos busca, porque então não há solidão. Só o desejo do encontro no meio do caminho. Enquanto isso aguardamos. Não de forma inerte. Talvez num silêncio ativo, numa observação constante, no infindável retorno às memórias que nos sustentam e nos tornam significantes. Passos lentos em uma caminhada que, com certeza, é intensa e com grandes surpresas, mas nem por isso menos prazenteira. Imensos e largos caminhos que, por vezes, se afunilam para nos conduzir a um único largo, talvez o menos provável em nossos desejos, mas o mais coerente com nossas paisagens edificadas ao longo do percurso. Que venha então o inusitado, pois tenho aprendido a recebê-lo com largo sorriso, não sem certo temor ou receio, mas feliz por saber que é por ele que me engrandeço e por ele faz sentido persistir. Um brinde à busca, ao inesperado e aos queridos que comigo compartilham da expectativa. Salve.


Imagem: Moema N Queiroz - Janelas do Rosário (Ouro Preto/MG)

Citação: ESTES, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. Rocco. RJ,1992

20 de mai de 2010

Estrelas-pirilampos (por Moema Queiroz)

No reino dos gatos alados, onde estes se tornam estrelas-pirilampos, deve haver postes de nuvens para que possam subir correndo, em disparada,  prontos para brincarem com os cometas ariscos que teimam em cruzar o céu. E nas noites amenas, aconchegos em forma de abraços quentes daqueles que cuidam desses seres anjinhos que transformam nossa vida em momentos especiais de entrega e doação. Minha companheirinha deve ter ido pra esse reino, depois de 10 anos de puro afeto e companheirismo. Obrigada Theophila Miau. Vc me tornou mais humana. Sentirei saudades...

Imagem: Moema N Queiroza - Theo.


30 de abr de 2010

Tempo Tríbio (por Gilberto Freyre)

"... Pois o presente (..) é um presente sempre em expansão, para trás e para adiante. Tanto evoca quanto profetiza. A ciência que se considere Futurologia – ciência relativa – tende a ser uma disciplinação da tendência humana para a profecia, em ligação com a tendência, também muito humana, para a evocação; e, sem que falte a qualquer dessas tendências o terra-a-terra da observação da realidade imediata. Realidade imediata na qual se cruzam sobrevivências e antecipações. O homem nunca está apenas no presente. Se apenas se liga ao passado, torna-se arcaico. Se apenas procura viver no futuro, torna-se utópico. A solução para as relações do
Homem com o tempo parece estar no reconhecimento do tempo como uma realidade tríbia; e como o homem vive imerso no tempo, ele próprio é um ser, - um estar sendo, diria talvez Gasset – tríbio."
FREYRE, Gilberto. Futurologia. In: Antecipações. Recife: EDUPE, 2001. p. 171. (Coleção Nordestina)


Vocabulário: 
1 – Tríbio - Um tempo de processo, de desenvolvimento, de vir-a-ser. Tempo-Homem, Tempo-Vida, Tempo-Possibilidade.
2 – Gasset - Jose Ortega y Gasset, escritor e filósofo espanhol (1882-1955)" 

Imagem: Moema N Queiroz - Instante. Equador, janeiro de 2017. http://yourshot.nationalgeographic.com/photos/9617320/
http://www.youtube.com/watch?v=utlsaER5ZTg

26 de abr de 2010

Devia morrer-se de outra maneira (por José Gomes Ferreira)


"Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis..."


Poema de José Gomes Ferreira, escritor, poeta e ficcionista português, natural do Porto/Portugal (1900-1985) 
http://www.astormentas.com/zegomes.htm

Imagem:
Moema N Queiroz - Equador, Jan 2011




21 de abr de 2010

Vertigem© (por Moema Queiroz)

Amanheceu. Apenas mais um entre tantos. Dia cinzento, pálido e frio. Com uma melancólica bruma a envolvê-lo num sedutor e interminável abraço a compor carências, ausências, apegos. Foi sendo acordado por uma antiga canção, suave som vindo de um rádio. Melancólico, assim de um tempo tão longe... mesclado ao sono, naquele preciso momento em que ainda se está adormecido, porém próximo do despertar. Estação mágica em que o aqui e o outro lado se confundem. Corpo quente, mente confusa, alma vazia. Despertou, por fim, depois da interminável noite a burilar pensamentos. Podia ainda sentir aquele calor ao seu lado, muito embora há muito era solidão... Calor teimoso, insistente, impregnado de uma memória já quase ausente, contudo resistente a se transformar em diáfano cristal. Talvez fosse isso mesmo. Nada a fazer. Tempo passado, momento perdido, incontestável desconcerto. Vagarosamente ergueu-se, ainda abatido. Deu-se conta de quão densa se transformou sua vida. Pensou em qual momento havia perdido seu fio condutor. Não soube responder. Mesmo porque não se fazia mais necessário. Seu olhar fixou-se no vazio do horizonte, por entre a grande abertura transparente de seu quarto e sentiu-se exatamente como o dia. Precisamente como todos os seus intermináveis dias. Estava confuso ainda sobre em que tempo transitava. Fluía entre o ontem e o hoje, em reminiscências a se confundirem à sucessão dos seus dias. Sua mente estava lenta, tomada por um moroso e crescente torpor. Podia ainda ouvi-los pelo ambiente, como naqueles deliciosos dias etéreos, a flutuarem pelos espaços, libertos, despreocupados, sem medos. A vida era bem mais ingênua e doce. Permitiu-se inundar dessas tão amadas e aprazíveis recordações seguidas por profundos sentimentos transformados em nítidas imagens. Um longo suspiro. Balançou a cabeça. Cerrou os olhos e percebeu-se absolutamente só. Como a muito já se encontrava. Vestiu-se em ritmo lento, dirigiu-se à saída e caminhou até a beira-mar levando rente ao corpo o abrigo e em uma das mãos as sandálias. Andou vagarosamente como se almejasse perceber cada grão de areia tocando a fina pele de seus pés, entrando em seus poros, expurgando suas amarguras, suas mazelas, suas não realizadas ações, acumuladas pelo temor em mostrar-se, sentir-se, tornar-se real, frágil, vulnerável, carente, humano. Há tantos anos construindo uma poderosa muralha de fel e amargor e egoísmo, cimentando quotidianamente seu muro, com cinzas lágrimas, dolorosamente tragadas, produzindo o matiz final. Sentiu como que se sua vida estivesse vinculada a um tênue e frágil fio prestes a se romper. Então, subitamente parou. Sentiu que suas pernas não mais o obedeciam. Seu corpo foi invadido por um tremor incontrolável e uma dor lancinante o atingiu, indomável, brutal. Nesse momento parecia haver o tempo, o mar, o vento, paralisado. Apenas silêncio. Percebia somente um som profundo e dolente. Produzido não por suas cordas vocais. Não por sua boca. Escapava de todo o seu rígido corpo. Inteiro. Todo ele. Um som dorido, absurdamente humano, vibrando todos os seus tão solidamente bem montados alicerces. Percebeu por fim que ali mesmo se abandonaria, ruindo, desmontando. Num último impulso conseguiu levar violentamente sua mão ao peito. Buscou o infinito. Desesperadamente. Mirou toda a extensa orla procurando algum sentido para si. Percebeu então como que se aproximando ao longe, desfocadas imagens. Seres que seu coração reconhecia. Sim. Lá estavam. Todos eles. Veículos de sua humanização. Filhos de sua alma. Percebeu o quanto os queria. Não. O quanto os amava. O quanto sua alma torturada urgia desatinadamente por eles. O quanto seu eterno silêncio ansiava por expor ao mundo sua dor. Sua vontade de reconstrução. De voltar a ser. Pensou talvez em esperança. Para si, para seu muro, para seus grises. Então chorou. Copiosamente. Oceanos infinitamente represados banharam seu corpo misturando-se à saliva salgada. Olhou para sua mão úmida junto ao peito e percebeu que dela emanava um suave brilho. Mirou-a com grande atenção vendo uma tênue luz prateada a desprender-se de sua palma e das pontas de seus dedos. Tinha discreto fulgor e forte encantamento que aquecia seu frio corpo, acalmava seu mar revolto, rompia suas tão bem assentadas estruturas rochosas. Percebeu-se respirando suave e compassadamente, absorvendo a bruma, o frescor do ar, a grandiosa energia que brotava. Quis erguer-se, mas sentiu uma leve vertigem. Cerrou então sua mão e guardou-a em seu abrigo na certeza de prender tal luz. Fez outra tentativa e então recomeçou a caminhar seguindo-os por entre a bruma e, muito embora não pudesse ainda distingui-los, sabia que estava seguro. De seus lábios, apenas um discreto sorriso. De seu corpo, pequenos fragmentos de um muro antes impenetrável, agora se desprendendo. A cada fração solta, uma prateada luz liberta. Caminhava. Calmo e flutuante. Com a certeza de agora estar senhor de si mesmo. Atrás, apenas um vazio invólucro banhado pelas espumas e embalado pelo vento.

Texto de Moema N Queiroz (1999): todos os direitos reservados.
Ilustração:  Sem título/Quint Buchholz (extraído do livro: "BUCHHOLZ, Quint. El libro de los libros. Editorial Lumen, Madrid, 1998) 

12 de abr de 2010

Caixa Negra © (por Moema Queiroz)


Estava de cócoras. Aliás, é como se sempre estivesse. Foi encontrada assim, com as mãos sobre a cabeça. Mãos pálidas, translúcidas. Como todo o seu ser. Possuía uma aparência inquietante, profundamente perturbadora. Havia algo que incomodava ao olhá-la. Seus olhos... de um intenso negro, tão profundo como um abismo. Ao mirá-los corria-se o risco de se perder. Passagem sem retorno. Rota sem rumo. Ela tentou. Lutou desesperadamente, gritou, clamou por ajuda, em sua silenciosa maneira de bradar. Exauriu suas forças. Estava já cansada. Extenuada. Deixou-se então cair na mais profunda letargia, da qual não mais despertaria. Assim, adormeceu. Ele venceu. Como a noite que lentamente cinge o último vestígio de luz. Não se soube ao certo as circunstâncias, o porquê. Não havia explicação. Um dia ela deixou de sorrir. Sentiu que, sutilmente, seus pensamentos já não mais lhe pertenciam. Não mais os dominava. Era como se mil vozes a invadissem e a sua, como frágil fio diáfano, se escoasse em meio a esse vórtex. Manifestavam-se juntas, em uníssono, cruéis, irônicas, voluntariosas. Era inútil tentar sobrepô-las, não havia mais como gritar. Suas palavras se perdiam e com elas sua essência. Numa noite, tão negra quanto seus olhos, ela despertou com ele. Sua presença se fez quase palpável. Concreta. Tangível. Então ele entrou e, pausadamente, fez morada em seus pensamentos. E seus longos e mornos tentáculos foram lhe invadindo, enlaçando, sugando, deixando um assombroso vazio, um profundo abismo. Sua essência, lentamente, desapareceu. Como seus olhos. Como seu sorriso. Como todo o seu ser. Ele a domou, delicadamente, numa lentidão quente, morna, sedutora, tornando-se seu dono absoluto. Assim, ela já não mais possuía vontades e seus impulsos, aspirações, desejos, foram pouco a pouco esmaecendo. Como pintura ao sol. Como água na terra. Aroma no ar. E nesse terno desvanecer, ela se permitiu ser conduzida... Deixou-se levar por seus lentos e envolventes braços, por seus tentáculos negros que não permitiam espaços a fugas. Foi-se como que aninhando, assim como um animal que antecipa seu fim. Serenamente. E no compasso da noite foi desaparecendo, retirando-se para sua caixa negra. Negra como seus olhos, tão profundamente vazios, cerrando assim sua alma.

 

Imagem: Danaé/Gustav Klimt, 1907 

Texto de Moema N Queiroz (1999): todos os direitos reservados. 

10 de abr de 2010

Irmão© (por Moema Queiroz)



Pensar no tempo é saber que temos história. E a memória é que nos salva do perene, do fim, do vazio. Lembrar é resgatar o que há de mais precioso em nossas vidas. É fantástica essa máquina do tempo que nos proporciona reviver abraços, afetos, cheiros, sons. Sentimentos mais lindos, emoções mais profundas. Resgates eter...nos diante do que chamamos saudade. Fonte luminosa e prazenteira de calor no coração. Fecho os olhos e ligo o circuito. Pronto. Estou em meu mundo, num outro mundo dentro do meu tempo, feliz por mais uma vez esse encontro. Proteção, carinho, mão na mão, amor no silêncio. Amor divino, maternal, fraternal, eterno. No vazio, no silêncio, no universo dentro de mim, uma certeza: constelações cantam, vibram sons inimagináveis e em alguns momentos, estão pertinho de nós. Tamanha honra por poder acompanhá-lo por 36 anos de sua vida. Todo o tempo além do tempo unidos. Sinto que estamos juntos.

Moema N. Queiroz 

Imagem: Arquivo pessoal

Texto de Moema N Queiroz: todos os direitos reservados.