"Com todo o cuidado guarda teu coração, pois dele procede a vida" (Pv. 4, 23)

30 de abr de 2010

Tempo Tríbio (por Gilberto Freyre)

"... Pois o presente (..) é um presente sempre em expansão, para trás e para adiante. Tanto evoca quanto profetiza. A ciência que se considere Futurologia – ciência relativa – tende a ser uma disciplinação da tendência humana para a profecia, em ligação com a tendência, também muito humana, para a evocação; e, sem que falte a qualquer dessas tendências o terra-a-terra da observação da realidade imediata. Realidade imediata na qual se cruzam sobrevivências e antecipações. O homem nunca está apenas no presente. Se apenas se liga ao passado, torna-se arcaico. Se apenas procura viver no futuro, torna-se utópico. A solução para as relações do
Homem com o tempo parece estar no reconhecimento do tempo como uma realidade tríbia; e como o homem vive imerso no tempo, ele próprio é um ser, - um estar sendo, diria talvez Gasset – tríbio."
FREYRE, Gilberto. Futurologia. In: Antecipações. Recife: EDUPE, 2001. p. 171. (Coleção Nordestina)


Vocabulário: 
1 – Tríbio - Um tempo de processo, de desenvolvimento, de vir-a-ser. Tempo-Homem, Tempo-Vida, Tempo-Possibilidade.
2 – Gasset - Jose Ortega y Gasset, escritor e filósofo espanhol (1882-1955)" 

Imagem: Moema N Queiroz - Instante. Equador, janeiro de 2017. http://yourshot.nationalgeographic.com/photos/9617320/
http://www.youtube.com/watch?v=utlsaER5ZTg

26 de abr de 2010

Devia morrer-se de outra maneira (por José Gomes Ferreira)


"Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis..."


Poema de José Gomes Ferreira, escritor, poeta e ficcionista português, natural do Porto/Portugal (1900-1985) 
http://www.astormentas.com/zegomes.htm

Imagem:
Moema N Queiroz - Equador, Jan 2011




21 de abr de 2010

Vertigem© (por Moema Queiroz)

Amanheceu. Apenas mais um entre tantos. Dia cinzento, pálido e frio. Com uma melancólica bruma a envolvê-lo num sedutor e interminável abraço a compor carências, ausências, apegos. Foi sendo acordado por uma antiga canção, suave som vindo de um rádio. Melancólico, assim de um tempo tão longe... mesclado ao sono, naquele preciso momento em que ainda se está adormecido, porém próximo do despertar. Estação mágica em que o aqui e o outro lado se confundem. Corpo quente, mente confusa, alma vazia. Despertou, por fim, depois da interminável noite a burilar pensamentos. Podia ainda sentir aquele calor ao seu lado, muito embora há muito era solidão... Calor teimoso, insistente, impregnado de uma memória já quase ausente, contudo resistente a se transformar em diáfano cristal. Talvez fosse isso mesmo. Nada a fazer. Tempo passado, momento perdido, incontestável desconcerto. Vagarosamente ergueu-se, ainda abatido. Deu-se conta de quão densa se transformou sua vida. Pensou em qual momento havia perdido seu fio condutor. Não soube responder. Mesmo porque não se fazia mais necessário. Seu olhar fixou-se no vazio do horizonte, por entre a grande abertura transparente de seu quarto e sentiu-se exatamente como o dia. Precisamente como todos os seus intermináveis dias. Estava confuso ainda sobre em que tempo transitava. Fluía entre o ontem e o hoje, em reminiscências a se confundirem à sucessão dos seus dias. Sua mente estava lenta, tomada por um moroso e crescente torpor. Podia ainda ouvi-los pelo ambiente, como naqueles deliciosos dias etéreos, a flutuarem pelos espaços, libertos, despreocupados, sem medos. A vida era bem mais ingênua e doce. Permitiu-se inundar dessas tão amadas e aprazíveis recordações seguidas por profundos sentimentos transformados em nítidas imagens. Um longo suspiro. Balançou a cabeça. Cerrou os olhos e percebeu-se absolutamente só. Como a muito já se encontrava. Vestiu-se em ritmo lento, dirigiu-se à saída e caminhou até a beira-mar levando rente ao corpo o abrigo e em uma das mãos as sandálias. Andou vagarosamente como se almejasse perceber cada grão de areia tocando a fina pele de seus pés, entrando em seus poros, expurgando suas amarguras, suas mazelas, suas não realizadas ações, acumuladas pelo temor em mostrar-se, sentir-se, tornar-se real, frágil, vulnerável, carente, humano. Há tantos anos construindo uma poderosa muralha de fel e amargor e egoísmo, cimentando quotidianamente seu muro, com cinzas lágrimas, dolorosamente tragadas, produzindo o matiz final. Sentiu como que se sua vida estivesse vinculada a um tênue e frágil fio prestes a se romper. Então, subitamente parou. Sentiu que suas pernas não mais o obedeciam. Seu corpo foi invadido por um tremor incontrolável e uma dor lancinante o atingiu, indomável, brutal. Nesse momento parecia haver o tempo, o mar, o vento, paralisado. Apenas silêncio. Percebia somente um som profundo e dolente. Produzido não por suas cordas vocais. Não por sua boca. Escapava de todo o seu rígido corpo. Inteiro. Todo ele. Um som dorido, absurdamente humano, vibrando todos os seus tão solidamente bem montados alicerces. Percebeu por fim que ali mesmo se abandonaria, ruindo, desmontando. Num último impulso conseguiu levar violentamente sua mão ao peito. Buscou o infinito. Desesperadamente. Mirou toda a extensa orla procurando algum sentido para si. Percebeu então como que se aproximando ao longe, desfocadas imagens. Seres que seu coração reconhecia. Sim. Lá estavam. Todos eles. Veículos de sua humanização. Filhos de sua alma. Percebeu o quanto os queria. Não. O quanto os amava. O quanto sua alma torturada urgia desatinadamente por eles. O quanto seu eterno silêncio ansiava por expor ao mundo sua dor. Sua vontade de reconstrução. De voltar a ser. Pensou talvez em esperança. Para si, para seu muro, para seus grises. Então chorou. Copiosamente. Oceanos infinitamente represados banharam seu corpo misturando-se à saliva salgada. Olhou para sua mão úmida junto ao peito e percebeu que dela emanava um suave brilho. Mirou-a com grande atenção vendo uma tênue luz prateada a desprender-se de sua palma e das pontas de seus dedos. Tinha discreto fulgor e forte encantamento que aquecia seu frio corpo, acalmava seu mar revolto, rompia suas tão bem assentadas estruturas rochosas. Percebeu-se respirando suave e compassadamente, absorvendo a bruma, o frescor do ar, a grandiosa energia que brotava. Quis erguer-se, mas sentiu uma leve vertigem. Cerrou então sua mão e guardou-a em seu abrigo na certeza de prender tal luz. Fez outra tentativa e então recomeçou a caminhar seguindo-os por entre a bruma e, muito embora não pudesse ainda distingui-los, sabia que estava seguro. De seus lábios, apenas um discreto sorriso. De seu corpo, pequenos fragmentos de um muro antes impenetrável, agora se desprendendo. A cada fração solta, uma prateada luz liberta. Caminhava. Calmo e flutuante. Com a certeza de agora estar senhor de si mesmo. Atrás, apenas um vazio invólucro banhado pelas espumas e embalado pelo vento.

Texto de Moema N Queiroz (1999): todos os direitos reservados.
Ilustração:  Sem título/Quint Buchholz (extraído do livro: "BUCHHOLZ, Quint. El libro de los libros. Editorial Lumen, Madrid, 1998) 

12 de abr de 2010

Caixa Negra © (por Moema Queiroz)


Estava de cócoras. Aliás, é como se sempre estivesse. Foi encontrada assim, com as mãos sobre a cabeça. Mãos pálidas, translúcidas. Como todo o seu ser. Possuía uma aparência inquietante, profundamente perturbadora. Havia algo que incomodava ao olhá-la. Seus olhos... de um intenso negro, tão profundo como um abismo. Ao mirá-los corria-se o risco de se perder. Passagem sem retorno. Rota sem rumo. Ela tentou. Lutou desesperadamente, gritou, clamou por ajuda, em sua silenciosa maneira de bradar. Exauriu suas forças. Estava já cansada. Extenuada. Deixou-se então cair na mais profunda letargia, da qual não mais despertaria. Assim, adormeceu. Ele venceu. Como a noite que lentamente cinge o último vestígio de luz. Não se soube ao certo as circunstâncias, o porquê. Não havia explicação. Um dia ela deixou de sorrir. Sentiu que, sutilmente, seus pensamentos já não mais lhe pertenciam. Não mais os dominava. Era como se mil vozes a invadissem e a sua, como frágil fio diáfano, se escoasse em meio a esse vórtex. Manifestavam-se juntas, em uníssono, cruéis, irônicas, voluntariosas. Era inútil tentar sobrepô-las, não havia mais como gritar. Suas palavras se perdiam e com elas sua essência. Numa noite, tão negra quanto seus olhos, ela despertou com ele. Sua presença se fez quase palpável. Concreta. Tangível. Então ele entrou e, pausadamente, fez morada em seus pensamentos. E seus longos e mornos tentáculos foram lhe invadindo, enlaçando, sugando, deixando um assombroso vazio, um profundo abismo. Sua essência, lentamente, desapareceu. Como seus olhos. Como seu sorriso. Como todo o seu ser. Ele a domou, delicadamente, numa lentidão quente, morna, sedutora, tornando-se seu dono absoluto. Assim, ela já não mais possuía vontades e seus impulsos, aspirações, desejos, foram pouco a pouco esmaecendo. Como pintura ao sol. Como água na terra. Aroma no ar. E nesse terno desvanecer, ela se permitiu ser conduzida... Deixou-se levar por seus lentos e envolventes braços, por seus tentáculos negros que não permitiam espaços a fugas. Foi-se como que aninhando, assim como um animal que antecipa seu fim. Serenamente. E no compasso da noite foi desaparecendo, retirando-se para sua caixa negra. Negra como seus olhos, tão profundamente vazios, cerrando assim sua alma.

 

Imagem: Danaé/Gustav Klimt, 1907 

Texto de Moema N Queiroz (1999): todos os direitos reservados. 

10 de abr de 2010

Irmão© (por Moema Queiroz)



Pensar no tempo é saber que temos história. E a memória é que nos salva do perene, do fim, do vazio. Lembrar é resgatar o que há de mais precioso em nossas vidas. É fantástica essa máquina do tempo que nos proporciona reviver abraços, afetos, cheiros, sons. Sentimentos mais lindos, emoções mais profundas. Resgates eter...nos diante do que chamamos saudade. Fonte luminosa e prazenteira de calor no coração. Fecho os olhos e ligo o circuito. Pronto. Estou em meu mundo, num outro mundo dentro do meu tempo, feliz por mais uma vez esse encontro. Proteção, carinho, mão na mão, amor no silêncio. Amor divino, maternal, fraternal, eterno. No vazio, no silêncio, no universo dentro de mim, uma certeza: constelações cantam, vibram sons inimagináveis e em alguns momentos, estão pertinho de nós. Tamanha honra por poder acompanhá-lo por 36 anos de sua vida. Todo o tempo além do tempo unidos. Sinto que estamos juntos.

Moema N. Queiroz 

Imagem: Arquivo pessoal

Texto de Moema N Queiroz: todos os direitos reservados.