"Com todo o cuidado guarda teu coração, pois dele procede a vida" (Pv. 4, 23)

2 de dez de 2010

1º DE DEZEMBRO: DIA MUNDIAL DE COMBATE A AIDS


Imagem Google

"O preconceito e a  discriminação contra as pessoas vivendo com HIV/Aids são as maiores barreiras no combate à epidemia, ao adequado apoio, à assistência e ao tratamento da Aids e ao seu diagnóstico.

 

Demonstrações de amor, um afago, um olhar carinhoso, palavras de esperança e ânimo, um abraço caloroso e confortante não contaminam seu doador. O carinho em toda sua forma é um poderoso apoio a quem é portador. Por isso, diga NÃO ao preconceito. E use camisinha. Não é apenas uma questão de consciência. É um ato de AMOR.

 

Alguns de nós já convivemos e perdemos pessoas importantes, portadoras de HIV. Eu tive a honra de conviver de perto com algumas, muito queridas e amadas. Lindos seres humanos, sedentos de vida, curiosos pelo que o mundo havia a lhes oferecer. E que partiram deixando um grande vazio em minha vida e creio que de muitos, mas nos proporcionando grande aprendizado que só um convívio tão estreito em um momento tão difícil pode produzir.

 

Em 1990, quando me decidi por sair de casa e tomar novos rumos em meu caminho, deparei-me com essa linda criatura. Um caminho novo, grandes desafios, longe de minhas origens, dos meus que tanto me protegiam, dos laços mais caros. E lá o encontrei, sorriso franco, aberto, olhos grandes e um grande abraço honesto e caloroso. Foi empatia à primeira vista. Diria um reencontro com alguém que há séculos estava ausente. E no decorrer deste ano, mais outras pessoas foram se somando ao nosso pequeno grupo, tornando-se um quarteto fantástico e heterogêneo. Cada um com suas características próprias, sua estrutura de vida peculiar, mas com um senso de amizade e união como nunca havia vivenciado. E tendo como centro esse ser cheio de luz. Foi assim durante todo nosso convívio, por quase dois anos, até o dia em que fomos golpeados pela triste notícia. Lembro-me de chegar  em casa, depois de um dia estafante e denso e encontrá-lo junto à outra amiga, em meu quarto, com um olhar perdido, carregando um oceano e um envelope em mãos. Não sabia o que era, mas tinha plena certeza de que havia grande tristeza. Ao me deparar com essa cena os abracei. E ele baixinho, num susurro contido nos disse...   

 

"(...) fui contaminado. Sou soropositivo. Não é justo! Nunca fui devasso, (...)  tinha um parceiro fixo. E agora vou morrer (...)".  

 

Não tenho como descrever meus sentimentos. Apenas chorei junto a ele, nós três alí abraçados, sem uma palavra, sem um movimento, apenas unidos nos consolando uns aos outros. Naquela época havia muito medo e falta de informações mais precisas sobre essa doença e muito do que se ouvia era sobre preconceitos. Para nós tudo era uma pesada novidade, pois até então nunca haviamos vivenciado junto a alguém que amávamos, essa situação. Somente ecos distantes. 

 

Tivemos medo. Não de nosso amigo e o que ele portava, mas do que poderia advir quando soubessem de sua condição. Já prevíamos o preconceito no meio onde estávamos e nossa primeira atitude foi, junto à quarta pessoa do grupo, o protegermos. Ele nos solicitou que não contássemos a ninguém, pois sentia medo e vergonha. Assim foi feito, até quando fosse possível. E juntos criamos mil estratégias para que ninguém desconfiasse. Em nossas aulas, formamos um grupo onde faziamos tudo juntos. Saíamos com ele, jantávamos juntos, ríamos juntos e nos permitíamos viver o dia a dia, passo a passo, desfrutando dos momentos de alegria, mas também das angústias a cada internação, a cada modificação física, a cada relato de preconceito e frieza já sentida, à certeza de um caminho sem volta. Ainda não havia uma grande qualidade de vida para os portadores como há hoje. E assistíamos assustados à absurdamente rápida metamorfose sem podermos paralisar o tempo. Até o fim. 

 

Lembro-me dos últimos dias, após várias internações, quando já não era mais possível esconder sua situação das pessoas ao nosso redor, quando por mais que tentássemos, não tínhamos como protegê-lo desse maldito olhar preconceituoso, do afastamento consciênte daqueles que se diziam colegas, amigos... Éramos precionadas a falar o óbvio, mas nada faria com que quebrássemos nosso acordo, pois era dele esse direito. Nos mantivemos em silêncio, em observação, em vigília. Nos revesávamos nos trabalhos dentro do ateliê e em tudo no que dizia respeito à nossa pós-graduação. Todas as tardes uma de nós o acompanhava ao pátio da escola, para juntos tomar um pouco de sol e trocar confidências, filosofando sobre a vida e a outra vida.  Aquela além dessa aqui. Em sua lucidez, suas palavras soavam com outra vibração,  imbuídas de reflexões sobre esta sua passagem e suas relações afetivas, amorosas, irmanadas, com um conformismo diante do inevitável, mas com uma serenidade absoluta e a certeza de que havia trilhado universos incríveis nessa sua experiência. Difícil, dolorosa, mas iluminada. Sim, ele considerava sua experiência iluminada pois tinha plena consciência de haver se tornado um ser melhor. Nós três, que o acompanhávamos nessas tardes de morno sol, absorvíamos seus pensamentos e palavras, sem nos darmos conta do quanto estávamos aprendendo... 

 

Uma tarde ele não apareceu...

 

Não houve tempo também para nos despedirmos... Soubemos que havia partido, no dia seguinte, num fim de dia triste, morno, junto aos seus entes queridos. Era uma tarde como tantas que compartilhamos. 

 

Dentro de nós apenas um vazio. Imenso. Mas a certeza de termos tido a oportunidade de aprendermos tanto e compartilharmos o mais puro sentimento de afeto e amor com aquele que nos acolheu de forma tão generosa e nos deu a honra de podermos perceber em tão pouco tempo o significado  da amizade e todos os sentimentos que complementam essa virtude.

 

E me pergunto porque somente hoje consigo falar sobre isso. Talvez porque daquela época para cá eu venha aprendendo sobre perdas, sobre vazios e ganhando alguns grises no olhar. Mas também resgatando esses lindos sentimentos apreendidos na convivência com um grupo que me é tão importante até hoje, mesmo com nossos caminhos diferenciados. E porque talvez, com a maturidade, eu esteja conseguindo perceber as sutis nuances dessa experiência que, apesar de triste, me trouxe novas perspectivas.  

 

Mauro, que Deus lhe abençoe. Você está em meu coração.