"Com todo o cuidado guarda teu coração, pois dele procede a vida" (Pv. 4, 23)

19 de dez de 2011

Gratidão (clique para assistir ao vídeo)


Aos amigos queridos, presentes ao longo dos anos, da vida, 
aos novos amigos, aos amigos eternos, 
minha gratidão, pela amizade, carinho, sinceridade e afeto. 
Que Deus em sua imensa sabedoria possa estar presente em seus corações não somente no Natal e ano novo, mas eternamente. 
Um Feliz Natal e que 2012 
seja resplandecente de bênçãos. 

"Não há nada mais gratificante do que o 
afeto correspondido,
nada mais perfeito do que a 
reciprocidade de gostos
e a troca de atenções."

Cícero
 
 
Imagem:  Imagens Google 

http://www.youtube.com/watch?v=sGDO99gmb1Q
 
 

16 de dez de 2011

Com ou sem escolhas? (por Regina T. da Costa)



"A vida é moldada pelas escolhas. 
Tanto nós quanto aqueles que convivem conosco sabemos nossa posição porque sempre a repetimos. E essa maneira de ser é percebida. Podemos dizer que é pega “no ar”. E as pessoas já se aproximam esperando a resposta de sempre. Até nossas fraquezas e alienações. 
Moldamos a vida pelas escolhas da mesma forma que um chapéu se molda à cabeça do dono. Pequenas e imperceptíveis escolhas do cotidiano definem nossa posição. Contudo nem sempre mostramos o que somos porque também não sabemos. Ficamos surpresos por agirmos mais pelo outro do que por desejo. Quando despertamos, estamos totalmente ocupados pelo outro.
Apressamo-nos demais em ajudar, completar o outro, fazer o outro feliz, descomplicar suas confusões. E caímos na fusão. Resolvemos tudo para o outro: o satisfazemos e, ao mesmo tempo, esquecemos o nosso desejo e quanto é difícil sustentá-lo. E mais, de como é difícil barrar o outro para preservá-lo. 
Muita gente prefere assim, pular para a vida do outro para não se haver com o sintoma, o desejo. Nem sabe que faz assim porque é cômodo. Para fugir de si, toma conta da vida do outro, incapacita o outro com sua atitude. São os eternos curiosos e prestativos. Muitas belas almas matam a subjetividade daqueles com quem convivem. Resolvendo todos os problemas do outro, estas pessoas sentem-se úteis, fortes, onipotentes. Oferta-se ao uso é garantir presença na barganha. Prolongam assim relações de dependência e manipulação. A dependência pode chegar a debilitar o outro totalmente. Até profissionalmente, porque com o corpo mole de tanto ser carregado ninguém pega firme com a vida. Está sempre esperando auxilio. 
Se o auxilio não vem... A culpa é do outro, que poderia ter feito isso, ter feito aquilo e não fez... Fácil não? Esperar que alguém sempre se faça de tolo, para que as coisas fiquem como convém. E quantos não o fazem? 
Não escolher é ficar em cima do muro. Pior. Deixar-se levar pelo outro a quem supõe saber o que é melhor. Poderia ser cômodo deixar-se levar, concordar com toda demanda. Nunca dizer não para quem amamos. 
Dizer não, deixar o outro ir é a atitude que traz angustia de separação. Para fazer assim, precisamos abrir mão da fusão ou confusão com o outro. Precisamos deixá-lo livre e ficarmos livres também. Cada um que arque com a consequência dessa verdade, da qual nem sempre queremos saber. 
Temos medo de perder. Admitimos o outro de corpo presente, sem desejo, sem motivo de estar ali. Não é a melhor escolha seguir o fluxo, deixar-se levar como uma folha lançada no leito de um rio ou ao vento. Por que então a angustia surge? Por que não há desejo, só amarração. 
O que nos faz saber quem somos, do que gostamos como queremos viver e principalmente o que nos faz tomar posse de nosso sujeito é o desejo, é criar opções. Uma coisinha pequena que faz toda a diferença. 
Descobrir a inexistência da felicidade plena é duro. Só da para ser feliz quando temos a liberdade e a coragem de dizer não para pequenas coisas. Aquelas que a gente sempre pensa: de uma coisa tão pequena posso abrir mão, não vai trazer problemas. Não pode, o problema virá. A consequência é o sufoco de ficar por conta do que o outro quer. 
Um gesto, uma palavra determinada como será sua relação com cada pessoa de seu relacionamento e nós apanhamos muito por ignorarmos isso. Atropelamos sem sensibilidade esse umbral." 


Texto:  Drª Regina T. da Costa (Psicanalista)
http://pt.shvoong.com/medicine-and-health/1926270-que-n%C3%A3o-queremos-saber

Imagem: http://www.rebeccadautremer.com

11 de dez de 2011

Púrpura








"Mais uma vez o cavaleiro real, o sol, galopou na vasta arena onde gira a roda da fortuna. 
Seus rivais prateados, as estrelas, empalideceram e apressadamente bateram em retirada para o Oeste. 
O semblante luminoso do conquistador era demais para o cálice cristalino da noite, que tremeu até se despedaçar, derramando seu vinho e tingindo os céus de uma cor púrpura de horizonte a horizonte. 
Assim surgiu o amanhecer, assim nasceu um novo dia."





Descrição de um amanhecer pelo poeta persa Nizami
Trecho do livro "Laila & Majnun: A clássica história de amor da literatura persa - Nizami (século XII)
Imagem: "Amanhecer" - por Moema N. Queiroz - Serra do Cipó (2010)

10 de dez de 2011

Efêmero

"(...) Tudo o que nos acontece nesta vida tem um significado, até mesmo quando, às vezes, ele é difícil de compreender. Toda página do vasto Livro da Vida, que é tão grande quanto o próprio universo, tem dois lados: num lado, empenhamo-nos em escrever nossos planos, nossos sonhos, nossas aspirações; no outro, o lado que nós não podemos ver, está preenchido pelo Destino, cujos decretos raramente concordam com nossos desejos. 
Quem pode decifrar as inscrições secretas do Destino? Para começar, estamos impossibilitados de lê-las. Então, quando podemos fazê-lo, somos incapazes de suportá-las! Nossos pensamentos e esperanças, nossos sonhos e aspirações, tudo prolonga-se rumo ao futuro, mas muitas vezes cometemos enganos e, quando nossos cálculos não estão corretos, temos de pagar. Admiramos a rosa e desejamos apanhá-la, só para ter nossas mãos rasgadas por espinhos quando nos debruçamos para arrancá-la.
Sofremos fome e sede e temos desejos frustrados, esquecendo que satisfazer nossos desejos pode ser nossa destruição, e que ficar sem as coisas que mais desejamos pode ser a nossa salvação. O fato é que o Destino e os desejos humanos normalmente estão em lados opostos: quando o homem está em conflito com o que foi escrito para ele no livro do Destino, seria melhor consentir do que se rebelar. Pois o homem se esquece de que aquilo que parece ser veneno às vezes transforma-se em mel.
 (...) Tudo o que somos e tudo que temos realmente nos é dado em confiança: o empréstimo da vida é nosso, mas por pouco tempo. Chega um momento em que temos de devolver tudo aquilo que nos foi concedido. Assim, o homem não deveria se agarrar àquilo que lhe foi confiado, pois o desejo de posse é apenas uma corda que o liga a esse mundo de transição. Para obter a jóia real, é preciso abrir completamente o cofre e desejar mais do que a efêmera vida. (...)"

 
Trecho do livro "Laila & Majnun: A clássica história de amor da literatura persa (pelo poeta persa Nizami - século XII
Imagem: Imagens Google
 

4 de dez de 2011

Portais





"Um livro é como uma janela.
Quem não o lê, é como alguém que ficou
distante da janela e só
pode ver uma pequena
parte da paisagem."
Kahlil Gibran

 

Imagem: Portal para o Museu do Louvre
por Moema N Queiroz/ Paris, jan. 2011

28 de nov de 2011

Por un dia © (por Moema N. Queiroz)







Pinta mi cara de sol...
 
...

pues que hoy soy toda luz!




Imagem: Soy Luz© (por Moema N. Queiroz)
 

26 de nov de 2011

A Gaita de Vidro © (por Fabrício Andrade)

"Ouve-se, muitas vezes, que o cerne da expressão “viver de promessas” é a tragédia final dos enganados, dos que “são ludibriados” perante a realidade. Existe quem argumenta que “as realidades” são conjuntos apreensíveis a espera de possíveis seres apreensores… um tal Jorge Coutinho é um deles. 

Uma vez, pelo início da década de 90, um sábio professor, que não posso revelar o nome, pois encontra-se ainda em plena atividade, relatou em sala de aula a existência de um instrumento chamado “Gaita de Vidro”. Tal instrumento, que eu sempre imaginei com enormes foles translúcidos, produzia, segundo ele, um som tão pungente, tão magnífico, tão profundo, que amiúde levava seus instrumentistas, estudiosos medievais, ao suicídio! 

Tal relato deixou-me profundamente afetado, lembro-me disso vivamente. Passei longos dezoito anos imaginando o som desse instrumento e sonhando algum dia poder ver e ouvir, seja como fosse, ao menos uma réplica de tal maravilha. Belos dezoitos anos sem nenhuma informação contundente ou sequer esporadicamente satisfatória. Mas a “Gaita de Vidro”, vez por outra, sempre se insinuava em meus ouvidos e recorrentemente insistia em se materializar através de formas tonais em minha curiosidade. Sua melodia triste nunca me abandonou desde aquele dia.
Encontrei-me, portanto, dezoito anos depois, com o professor, embora na ocasião, aparentemente meu colega de profissão mas, em minha realidade, sempre meu professor: o douto Criador de Ilusões afirmou-me categoricamente, com a maior desfaçatez, jamais ter ouvido falar em tal instrumento…

Muitas vezes não são as promessas que nos fazem viver?… A ausência delas pode ser uma forma de morte tão desoladora quanto o entendimento, real e fatal, de que por detrás de todo erro existiu uma ilusão que o gerou. As ilusões nem sempre geram erros. Tornam, também, apreensíveis novas formas de nascer a cada dia. E no cômpito perene de um ninho de Fênix, sem dúvida, jaz o calor do abraço de Thanatos. 

Por isso, quase sempre, ainda hoje, ouço concertos onde Gaitas de Vidro são executadas por pessoas que não se importam de morrer um pouco a cada dia… Morrer perante o que se faz é possibilitar o nascimento de novas promessas, novas ilusões… o Bandeira afirmou, sem explicações: “Eu faço versos como quem morre.” É dele a última palavra!"
 Imagem: Google 
http://www.youtube.com/watch?v=EgoaehDEBrU&feature=player_embedded

16 de nov de 2011

Poema (por Fabricio Carpinejar)

"Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo. 
(...)"

Fabrício Carpinejar
Imagem Google

10 de nov de 2011

Reinvenção (Cecília Meireles)


A vida só é possível reinventada. 
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada
Imagem Google

7 de nov de 2011

Nada que um chá preto não resolva… © (por Fabrício Andrade)

Muitas vezes, em diversas ocasiões desfavoráveis, quem já não ouviu a profética e inexorável frase: “Tudo passa.”? Bem… tal consolo nem sempre funciona no momento mas, inevitavelmente, tempos depois, olhamos para o passado e presenciamos, satisfatoriamente, a veracidade estupenda deste vaticínio regular… e constatamos, não sem um pequeno sorriso quase triunfal, que, afinal… “tudo passa”…
Daí, uma conjectura possível, desvalido adendo, a essa verdade questionável, epítome de nossas vidas, é a ideia de que “tudo deixa seu rastro”. Que passa, passa… mas a sentença de absolvição plena ou a impunidade total não flana nos tribunais de nossa existência. Ao contrário: depois que “passam”, esses acontecimentos, sejam brisas ou simuns, fazem de nós aquilo que somos, amiúde o que nem sempre desejamos ser, ou para ser fleumático, aquilo que vai além do que esperávamos ser. Para o bem ou para… o irreconhecível.
Outra ideia é a de que toda a felicidade de nossa vida é tão passageira quanto nossa própria capacidade de reter instantes. Os momentos felizes “passam”, não é mesmo? Até onde a felicidade é uma lembrança que sucumbe nas feitorias do dia-a-dia e renasce nas memórias inventadas de histórias que, na maioria das vezes, são nosso impulso para recorrer à invenção de que viver vale a pena? Bem, isso à luz da premissa de que viver vale a pena! E, em quase todas as histórias, parece mesmo que vale…
Mas existem consolos possíveis… por exemplo: um chá preto resolve muita coisa, enquanto muita coisa (Roda da Fortuna, A Torre, O Enforcado...) não passa… um chá preto nos permite refinar, apagar ou conviver à força com os mais felizes, fugazes, terríveis rastros… uma xícara de chá preto fervente tem que ser tomada devagar. Isso é destino… “Amas tudo isso e eis por que posso viver junto a ti.”… Mallarmé…
Texto: Fabrício Andrade 
Imagem: Imagens Google

31 de out de 2011

Amar (por Carlos Drummond de Andrade)



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Imagem: Les Amants - René Magritte (1898-1967)
http://obviousmag.org/archives/2011/01/rene_magritte.html 

23 de out de 2011

Desassossego© (por Moema Queiroz)

 
O mundo está falido... e as relações por isso mesmo, desmoronando. 

Ou será o contrário? 

Não seria mais simples apenas ... S E R ? Sem ter que se provar o tempo todo algo? Temos que ser especiais,  sermos os mais amados, os mais admirados, os mais inteligentes, os mais felizes, os mais profissionais, os mais perfeitos... Não é possível apenas convivermos com o outro e simplesmente o admirarmos naquilo que este outro tem de belo a nos ofertar e compreendermos suas limitações, por isso mesmo amando-o, estabelecendo assim relações de afeto e respeito mútuo? Pois somos um o espelho do outro. Opostos. E por isso, complementares.

As relações estão se desfragmentando, cada vez mais impossibilitadas de se estabelecer diálogos. Vivemos momentos de intolerância sem fim, aprisionados em uma malha que nos impede a comunicação. Cortazar diz que o pior nem é tanto a solidão, mas a irremediável impossibilidade de compartilhá-la. Solidão...

"Ó meus irmãos"... Protejamos os laços que nos são mais caros, pois o tempo é tão breve e tão absolutamente fugaz... O que verdadeiramente importa pode ser tão mais... simples... e estar bem ao alcance de nossos sentidos... nas relações de amizade, nas relações de afeto, com o outro, com o mundo e o que o faz ... não podemos deixar de tentar, ou de querer tentar. 

Buscando um eco em palavras já tão sabiamente pronunciadas... "Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?" 




Ilustração: Rebecca Dautremer
Palavras sábias: Fernando Pessoa (via Álvaro de Campos)
 

21 de out de 2011

‘Vertigiro’

"Mas eu não quero me encontrar com gente louca", observou Alice.

" Você não pode evitar isso", replicou o gato.

"Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco, você é louca".

"Como você sabe que eu sou louca? " indagou Alice.

"Deve ser", disse o gato, 
"Ou não estaria aqui".
 
Ilustração: Rebecca Dautremer (http://www.rebeccadautremer.com/actus)
Texto: trecho de Alice através do espelho (Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas)
 

19 de out de 2011

Elástico, moldável, flexível... (por Moema N.Queiroz)

A vida nos exige muitas vezes flexibilidade. 
E não é vergonha alguma repensarmos atitudes ou voltarmos atrás. 
Todo mundo erra. 
Ninguém é perfeito e nessa vida estamos aqui para aprendermos e nos aperfeiçoarmos através dos nossos equívocos. 
Sejamos gentis com a vida, que ela nos devolverá essa gentileza.
Mesmo que às vezes a vida não nos pareça gentil, o caminho de amor que construímos vai se solidificando e há uma troca mútua e recebemos de volta tudo que doarmos. 
Mas... 
que exercício difícil! 
 ...
Dói crescer... 
 ...
 
 
Imagem: "Ícaro" (Google)
 
 

14 de out de 2011

آهنگ عشق

 
 
 
 
"Pois naci nunca vi amor
E ouço d'el sempre falar.
Pero sei que me quer matar
Mais rogarei a mia senhor
Que me mostr' aquel matador
Ou que m'ampare d'el melhor"

Nuno Fernandez Torneol (aprox. 1200)
 
 
 
Imagem: Google

11 de out de 2011

Desabafo © (por Moema Queiroz)

Anjo Azul


Preciso todas as manhãs conseguir me reinventar. 
Mesmo porque se não for por esse caminho torna-se complicado suportar...
Buscar uma força que sei residir em mim. 
Não há outra forma.
 
 




Fotografia: Moema N Queiroz fotografia © Copyright  Todos os direitos reservados





2 de out de 2011

Convite



   "Vem, 

Te direi em segredo

Aonde leva esta dança.


Vê como as partículas do ar

E os grãos de areia do deserto

Giram desnorteados.


Cada átomo

Feliz ou miserável, 

Gira apaixonado

Em torno do sol."






Poesia: Rumi (Poemas Sufi)
 Fotografia: Moema N Queiroz fotografia © Copyright  Todos os direitos reservados

28 de set de 2011

As Janelas (Charles Baudelaire)

"Aquele que olha de fora através de uma janela aberta, não vê nunca tantas coisas quanto aquele que olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais radiante do que uma janela iluminada por uma candeia. O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa por detrás de uma vidraça. Neste buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.

Para além do ondular dos telhados, avisto uma mulher madura, já com rugas, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai. Com seu rosto, com sua roupa, com seu gesto, com quase nada, refiz a história desta mulher, ou melhor, sua lenda e, por vezes, a conto a mim mesmo chorando.

Houvesse sido um pobre velho homem, teria refeito a sua com igual facilidade. E me deito, feliz por ter vivido e sofrido em outros que não eu mesmo.

Vocês talvez me digam: "Tem certeza de que esta lenda é a verdadeira?" Que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou e o que sou?"

Diamantina - Instituto Casa da Gloria (UFMG)
Fotografia: Moema N Queiroz fotografia © Copyright  Todos os direitos reservados

22 de set de 2011

Tempo Sem Tempo (Zé Miguel Wisnik e Jorge Mautner)

"Vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
por algum tempo
o tempo dá voltas e curvas
o tempo tem revoltas absurdas
ele é e não é ao mesmo tempo
avenida das flores
e a ferida das dores
e só então
de sopetão
entro e me adentro no tempo e no vento
e abarco e embarco no barco de Ísis e Osíris
sou como a flecha do arco do arco-íris
que despedaça as flores mais coloridas em mil fragmentos
que passa e de graça distribui
amores de cristais totais sexuais celestiais
das feridas das queridas despedidas
de quem sentiu todos os momentos"
 Imagem: Imagens Google

2 de set de 2011

"Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? [...]  
É janela do corpo humano, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo, aceitando a prisão do corpo que, sem esse poder, seria um tormento [...]  
Ó admirável necessidade! Quem acreditaria que um espaço tão reduzido seria capaz de absorver as imagens do universo?  [...]  
O espírito do pintor deve fazer-se semelhante a um espelho que adota a cor do que olha e se enche de tantas imagens quantas coisas tiver diante de si ".
Leonardo da Vinci

17 de ago de 2011

 
 "Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos." 
Schiller Friedrich
 
 
 
  
 
 
 
 
Imagem: Imagens Google
 

11 de ago de 2011








 
"Toda noite quando durmo, morro. 
E todo dia quando acordo, renasço."
 
 
Mahatma Ghandi
 
 
Imagem: Imagens Google

30 de jul de 2011

Boas novas

"A natureza procura sempre o equilíbrio,  por isso, tende a preencher vazios e esvaziar excessos.  Devemos aprender a passar por esse processo com tranqüilidade."  
(autor desconhecido)

Um novo ciclo se inicia... 
Bons ventos se anunciam no horizonte. 
Respiro fundo e mergulho. 
Sem medos.
 
Imagem: Google

16 de jul de 2011

Enigma







"Dave, minha mente está se esvaindo..."








Imagem: Imagnes Google

12 de jul de 2011

Tabacaria (por Álvaro de Campos)

    Náo sou nada. 
    Nunca serei nada. 
    Náo posso querer ser nada. 
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto, 
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e esta lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

     Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre
    o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só
    o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

     (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe
    Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928  

    Imagem: Imagens Google