"Com todo o cuidado guarda teu coração, pois dele procede a vida" (Pv. 4, 23)

23 de mar de 2011

Encostei-me (por Álvaro de Campos - Fernando Pessoa)




Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos, 
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício. 
A minha vida passada misturou-se com a futura, 
E houve no meio um ruído do salão de fumo, 
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez. 

Ah, balouçado 
Na sensação das ondas, 
Ah, embalado 
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã, 
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas, 
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali, 
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse. 

Ah, afundado 
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono, 
Irrequieto tão sossegadamente, 
Tão análogo de repente à criança que fui outrora 
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra, 
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento. 

Ah, todo eu anseio 
Por esse momento sem importância nenhuma 
Na minha vida, 
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma, 
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o compreender 
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.  
Álvaro de Campos  


Música: Ravel, Piano concerto in G - II Adagio assai (L. Bernstein)   
Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=ud6nbX5XKVk 

Poema: Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) 
http://www.insite.com.br/art/pessoa/index.php