"Com todo o cuidado guarda teu coração, pois dele procede a vida" (Pv. 4, 23)

31 de out de 2011

Amar (por Carlos Drummond de Andrade)



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Imagem: Les Amants - René Magritte (1898-1967)
http://obviousmag.org/archives/2011/01/rene_magritte.html 

23 de out de 2011

Desassossego© (por Moema Queiroz)

 
O mundo está falido... e as relações por isso mesmo, desmoronando. 

Ou será o contrário? 

Não seria mais simples apenas ... S E R ? Sem ter que se provar o tempo todo algo? Temos que ser especiais,  sermos os mais amados, os mais admirados, os mais inteligentes, os mais felizes, os mais profissionais, os mais perfeitos... Não é possível apenas convivermos com o outro e simplesmente o admirarmos naquilo que este outro tem de belo a nos ofertar e compreendermos suas limitações, por isso mesmo amando-o, estabelecendo assim relações de afeto e respeito mútuo? Pois somos um o espelho do outro. Opostos. E por isso, complementares.

As relações estão se desfragmentando, cada vez mais impossibilitadas de se estabelecer diálogos. Vivemos momentos de intolerância sem fim, aprisionados em uma malha que nos impede a comunicação. Cortazar diz que o pior nem é tanto a solidão, mas a irremediável impossibilidade de compartilhá-la. Solidão...

"Ó meus irmãos"... Protejamos os laços que nos são mais caros, pois o tempo é tão breve e tão absolutamente fugaz... O que verdadeiramente importa pode ser tão mais... simples... e estar bem ao alcance de nossos sentidos... nas relações de amizade, nas relações de afeto, com o outro, com o mundo e o que o faz ... não podemos deixar de tentar, ou de querer tentar. 

Buscando um eco em palavras já tão sabiamente pronunciadas... "Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?" 




Ilustração: Rebecca Dautremer
Palavras sábias: Fernando Pessoa (via Álvaro de Campos)
 

21 de out de 2011

‘Vertigiro’

"Mas eu não quero me encontrar com gente louca", observou Alice.

" Você não pode evitar isso", replicou o gato.

"Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco, você é louca".

"Como você sabe que eu sou louca? " indagou Alice.

"Deve ser", disse o gato, 
"Ou não estaria aqui".
 
Ilustração: Rebecca Dautremer (http://www.rebeccadautremer.com/actus)
Texto: trecho de Alice através do espelho (Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas)
 

19 de out de 2011

Elástico, moldável, flexível... (por Moema N.Queiroz)

A vida nos exige muitas vezes flexibilidade. 
E não é vergonha alguma repensarmos atitudes ou voltarmos atrás. 
Todo mundo erra. 
Ninguém é perfeito e nessa vida estamos aqui para aprendermos e nos aperfeiçoarmos através dos nossos equívocos. 
Sejamos gentis com a vida, que ela nos devolverá essa gentileza.
Mesmo que às vezes a vida não nos pareça gentil, o caminho de amor que construímos vai se solidificando e há uma troca mútua e recebemos de volta tudo que doarmos. 
Mas... 
que exercício difícil! 
 ...
Dói crescer... 
 ...
 
 
Imagem: "Ícaro" (Google)
 
 

14 de out de 2011

آهنگ عشق

 
 
 
 
"Pois naci nunca vi amor
E ouço d'el sempre falar.
Pero sei que me quer matar
Mais rogarei a mia senhor
Que me mostr' aquel matador
Ou que m'ampare d'el melhor"

Nuno Fernandez Torneol (aprox. 1200)
 
 
 
Imagem: Google

11 de out de 2011

Desabafo © (por Moema Queiroz)

Anjo Azul


Preciso todas as manhãs conseguir me reinventar. 
Mesmo porque se não for por esse caminho torna-se complicado suportar...
Buscar uma força que sei residir em mim. 
Não há outra forma.
 
 




Fotografia: Moema N Queiroz fotografia © Copyright  Todos os direitos reservados





2 de out de 2011

Convite



   "Vem, 

Te direi em segredo

Aonde leva esta dança.


Vê como as partículas do ar

E os grãos de areia do deserto

Giram desnorteados.


Cada átomo

Feliz ou miserável, 

Gira apaixonado

Em torno do sol."






Poesia: Rumi (Poemas Sufi)
 Fotografia: Moema N Queiroz fotografia © Copyright  Todos os direitos reservados