"Com todo o cuidado guarda teu coração, pois dele procede a vida" (Pv. 4, 23)

28 de nov de 2011

Por un dia © (por Moema N. Queiroz)







Pinta mi cara de sol...
 
...

pues que hoy soy toda luz!




Imagem: Soy Luz© (por Moema N. Queiroz)
 

26 de nov de 2011

A Gaita de Vidro © (por Fabrício Andrade)

"Ouve-se, muitas vezes, que o cerne da expressão “viver de promessas” é a tragédia final dos enganados, dos que “são ludibriados” perante a realidade. Existe quem argumenta que “as realidades” são conjuntos apreensíveis a espera de possíveis seres apreensores… um tal Jorge Coutinho é um deles. 

Uma vez, pelo início da década de 90, um sábio professor, que não posso revelar o nome, pois encontra-se ainda em plena atividade, relatou em sala de aula a existência de um instrumento chamado “Gaita de Vidro”. Tal instrumento, que eu sempre imaginei com enormes foles translúcidos, produzia, segundo ele, um som tão pungente, tão magnífico, tão profundo, que amiúde levava seus instrumentistas, estudiosos medievais, ao suicídio! 

Tal relato deixou-me profundamente afetado, lembro-me disso vivamente. Passei longos dezoito anos imaginando o som desse instrumento e sonhando algum dia poder ver e ouvir, seja como fosse, ao menos uma réplica de tal maravilha. Belos dezoitos anos sem nenhuma informação contundente ou sequer esporadicamente satisfatória. Mas a “Gaita de Vidro”, vez por outra, sempre se insinuava em meus ouvidos e recorrentemente insistia em se materializar através de formas tonais em minha curiosidade. Sua melodia triste nunca me abandonou desde aquele dia.
Encontrei-me, portanto, dezoito anos depois, com o professor, embora na ocasião, aparentemente meu colega de profissão mas, em minha realidade, sempre meu professor: o douto Criador de Ilusões afirmou-me categoricamente, com a maior desfaçatez, jamais ter ouvido falar em tal instrumento…

Muitas vezes não são as promessas que nos fazem viver?… A ausência delas pode ser uma forma de morte tão desoladora quanto o entendimento, real e fatal, de que por detrás de todo erro existiu uma ilusão que o gerou. As ilusões nem sempre geram erros. Tornam, também, apreensíveis novas formas de nascer a cada dia. E no cômpito perene de um ninho de Fênix, sem dúvida, jaz o calor do abraço de Thanatos. 

Por isso, quase sempre, ainda hoje, ouço concertos onde Gaitas de Vidro são executadas por pessoas que não se importam de morrer um pouco a cada dia… Morrer perante o que se faz é possibilitar o nascimento de novas promessas, novas ilusões… o Bandeira afirmou, sem explicações: “Eu faço versos como quem morre.” É dele a última palavra!"
 Imagem: Google 
http://www.youtube.com/watch?v=EgoaehDEBrU&feature=player_embedded

16 de nov de 2011

Poema (por Fabricio Carpinejar)

"Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo. 
(...)"

Fabrício Carpinejar
Imagem Google

10 de nov de 2011

Reinvenção (Cecília Meireles)


A vida só é possível reinventada. 
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada
Imagem Google

7 de nov de 2011

Nada que um chá preto não resolva… © (por Fabrício Andrade)

Muitas vezes, em diversas ocasiões desfavoráveis, quem já não ouviu a profética e inexorável frase: “Tudo passa.”? Bem… tal consolo nem sempre funciona no momento mas, inevitavelmente, tempos depois, olhamos para o passado e presenciamos, satisfatoriamente, a veracidade estupenda deste vaticínio regular… e constatamos, não sem um pequeno sorriso quase triunfal, que, afinal… “tudo passa”…
Daí, uma conjectura possível, desvalido adendo, a essa verdade questionável, epítome de nossas vidas, é a ideia de que “tudo deixa seu rastro”. Que passa, passa… mas a sentença de absolvição plena ou a impunidade total não flana nos tribunais de nossa existência. Ao contrário: depois que “passam”, esses acontecimentos, sejam brisas ou simuns, fazem de nós aquilo que somos, amiúde o que nem sempre desejamos ser, ou para ser fleumático, aquilo que vai além do que esperávamos ser. Para o bem ou para… o irreconhecível.
Outra ideia é a de que toda a felicidade de nossa vida é tão passageira quanto nossa própria capacidade de reter instantes. Os momentos felizes “passam”, não é mesmo? Até onde a felicidade é uma lembrança que sucumbe nas feitorias do dia-a-dia e renasce nas memórias inventadas de histórias que, na maioria das vezes, são nosso impulso para recorrer à invenção de que viver vale a pena? Bem, isso à luz da premissa de que viver vale a pena! E, em quase todas as histórias, parece mesmo que vale…
Mas existem consolos possíveis… por exemplo: um chá preto resolve muita coisa, enquanto muita coisa (Roda da Fortuna, A Torre, O Enforcado...) não passa… um chá preto nos permite refinar, apagar ou conviver à força com os mais felizes, fugazes, terríveis rastros… uma xícara de chá preto fervente tem que ser tomada devagar. Isso é destino… “Amas tudo isso e eis por que posso viver junto a ti.”… Mallarmé…
Texto: Fabrício Andrade 
Imagem: Imagens Google